Entrevista - Jorge Sousa





Manuel Jorge Neves Moreira de Sousa, mais conhecido por Jorge Sousa, é um dos árbitros portugueses mais conceituados da história.

O árbitro de 44 anos é natural de Lordelo, Paredes, sendo que pertence à Associação de árbitros do Porto.

Iniciou a sua atividade na temporada de 1993/1994 e apita na Primeira Divisão desde 2001. É também desde 2006, um árbitro com insígnias da FIFA podendo arbitrar jogos internacionais.

Ao longo da sua carreira apitou alguns dos jogos mais importantes do futebol português, tendo também construído uma carreira de sucesso além-fronteiras.

Foi nomeado 6 vezes como o melhor árbitro do ano em Portugal. A Revista Desportiva esteve à conversa com Jorge Sousa.


Revista Desportiva (RD): De que forma ocupa a sua quarentena, visto que não pode exercer uma das coisas que mais gosta de fazer na vida, a arbitragem? 

Jorge Sousa (JS): Em termos desportivos, os treinos foram suspensos e tentamos manter a forma com treinos em casa e nas redondezas da nossa habitação, de modo a estarmos minimamente preparados para o regresso das competições. No restante, temos muitos trabalhos e reuniões técnicas semanais, realizadas através de plataformas digitais.


RD: Que justificação encontra para as constantes críticas, que por norma todas as semanas são imputadas aos Homens do apito? 

JS: A (baixa) cultura desportiva que temos enraizada no nosso país faz com que estejamos permanentemente à procura de bodes expiatórios para os insucessos obtidos, e nessa perspetiva a arbitragem é sempre um alvo fácil.


RD: De que forma, na sua opinião, se poderia diminuir este constante clima de suspeição que paira em torno da vossa classe profissional? 

JS: No seguimento da resposta anterior, mais cultura desportiva e honestidade intelectual por parte de alguns dos atores do futebol português iria ajudar.


RD: Será que a abordagem dos media, e principalmente daqueles que se dizem comentadores é a mais correta? 

JS: Os media simplesmente exploram uma oportunidade que o mercado lhes oferece. Os “pseudo” comentadores, mais não são que adeptos mediáticos que usam a comunicação social para intoxicarem e condicionarem como podem o meio futebolístico. Claro que, assim, o resultado não pode ser o melhor naquilo que é a defesa dos interesses do futebol.

Imagem Jornal Record

RD: De que modo a comunicação social poderia diminuir a pressão sobre os árbitros? 

JS: Contribuindo com programação mais positiva, construtiva e menos incendiária.


RD: Existem atualmente muitos jovens a querer enveredar pelo caminho da arbitragem?

JS: Sim. Ao contrário da altura em que tirei o curso e segui esta atividade, hoje uma carreira na arbitragem é algo que pode ser aliciante e isso faz com que muitos jovens queiram experimentar.


RD: E o Jorge, enquanto jovem, tinha o sonho de ser árbitro? 

JS: Não. Nunca me passou pela cabeça. Tudo aconteceu por mero acaso.


RD: De que maneira se ocupa nos tempos livres? Tem algum hobbie desconhecido do grande público? 

JS: Gosto muito da minha tranquilidade, do meu sossego, junto da família, dos meus filhos. Gosto de cinema, música e de séries. Gosto de viajar e conhecer novos sítios, infelizmente o tempo não é muito.


RD: Já conhecemos relativamente bem o Jorge Sousa árbitro de Futebol. Explique por favor aos leitores da Revista Desportiva, como se caracteriza o Homem e Chefe de família? 

JS: Uma pessoa muito tranquila, que preza a discrição e a família. Além de árbitro de futebol, trabalho no ramo das madeiras e derivados há mais de 20 anos.

Imagem Progresso de Paredes

RD: Pode contar-nos qual a situação mais curiosa que lhe aconteceu durante uma partida? 

JS: Lembro-me de um episódio em que uma chuteira minha rebentou e tive que interromper o jogo e ir ao balneário trocar de calçado, num jogo que até estava a ser transmitido em direto na televisão.


RD: Qual o jogo que até hoje mais o marcou? 

JS: Ao ler a pergunta, felizmente ocorrem-me logo muitos jogos: Bayern x Chelsea da final da Liga dos Campeões em 2012 como AAA; Espanha x Itália da final do Campeonato da Europa de 2012, também como AAA; jogo de estreia na Liga dos Campeões, Ajax x Real Madrid, duas finais da Taça de Portugal, duas Finais da Taça da Liga, muitos clássicos e dérbis. Enfim, muitos momentos felizes para recordar.


RD: Em que país foi mais difícil para si arbitrar? 

JS: Nenhum país em especial. Destaco mais os ambientes fantásticos da Grécia, Turquia, Alemanha e Inglaterra.


RD: O que sente enquanto está a dirigir uma partida? 

JS: Concentração máxima e foco na tarefa e tomada de decisão. Só isso importa. Depois, sempre que os ambientes proporcionem, desfrutar ao máximo o ambiente que existe à volta do jogo.


RD: Quais as principais dificuldades vivenciadas por um árbitro profissional? 

JS: O escrutínio e a exposição que este trabalho tem não é comparável a mais nenhuma atividade. Fica difícil atingir a perfeição.


RD: Pode confidenciar-nos qual a ocasião mais dramática que viveu num Estádio? 

JS: Situação dramática, felizmente nenhuma.


RD: Alguma vez chegou a temer pela sua vida, ou pela daqueles que lhe são mais próximos? 

JS: Não, nunca.

Imagem Jornal Record

RD: De que forma lida com uma má atuação? Por exemplo um erro que decide o destino de um clássico / campeonato? 

JS: Mal, muito mal. Sou extremamente exigente e rigoroso com o meu trabalho e os meus desempenhos. Não está em causa o mediatismo do jogo, mas sim o reconhecimento intrínseco de que uma decisão nossa menos conseguida, prejudicou uma equipa. Felizmente que hoje com os VAR, essas situações são praticamente residuais.


RD: Sente que ainda lhe falta concretizar algum sonho/ meta em termos da arbitragem? 

JS: Agora que o final está próximo, o objetivo é só um: desfrutar ao máximo cada treino, cada jogo, cada ambiente. Ser feliz!


RD: Que mensagem deixa aos nossos leitores, e quais os conselhos para um jovem que esteja a dar os primeiros passos no mundo da arbitragem?

JS: Quem vier para a arbitragem, que acredite que pode fazer a diferença e tenha uma mentalidade humilde, perseverante, ambiciosa e paciente. A todos os leitores, um forte abraço de amizade!




Entrevista Realizada por Diogo Rodrigues e João Tavares
Colaboração Diana Ferreira

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