No Grande Prémio de Singapura, no dia 28 de setembro de 2008, teve lugar um dos episódios mais negros da história da F1. Nelson Piquet Jr. despistou-se propositadamente, permitindo que o seu colega de equipa, Fernando Alonso, vencesse o Grande Prémio (GP). Este episódio ficou conhecido como Crashgate.
A Renault passava por momentos difÃceis na temporada de 2008. Depois de ter conquistado os tÃtulos de 2005 e 2006, com o espanhol Fernando Alonso, a equipa francesa ficou na terceira posição em 2007, ano em que Alonso esteve na McLaren. Em 2008, o espanhol regressou, mas mesmo assim a equipa continuava com dificuldades, não conseguindo estar ao mesmo nÃvel da Ferrari, da McLaren e da BMW-Sauber.
O melhor resultado da equipa até ao Grande Prémio de Singapura tinha sido a segunda posição de Nelson Piquet Jr., no GP da Alemanha. Aliás, foi essa corrida que serviu de inspiração para a estratégia utilizada no GP de Singapura.
Nelson Piquet Jr. foi eliminado na primeira fase da qualificação, partindo assim da 17ª posição. Portanto, adotou uma estratégia diferente dos restantes pilotos. Decidiu efetuar apenas uma paragem. Piquet parou à volta 34 e, na volta seguinte, Timo Glock teve um acidente que levou à entrada em pista do Safety Car. Piquet beneficiou com a situação e, quando todos os carros pararam uma segunda vez, assumiu a liderança. Até ao final da corrida viria a ser ultrapassado por Lewis Hamilton, no entanto, o segundo lugar era um resultado extraordinário para o construtor francês.
Nas corridas seguintes os resultados da Renault voltaram a ser desapontantes.
No Grande Prémio de Singapura, a equipa tinha a confiança de que iria conseguir um bom resultado. Alonso fez os melhores tempos nas sessões de treinos livres, mas na qualificação um problema com o seu monolugar fez com que partisse para a corrida apenas na 15ª posição.
Na corrida, o espanhol parou logo à volta 11, algo estranho, dada a posição em que arrancou. Na volta 15, o seu companheiro de equipa Piquet Jr. embateu na curva 17, um local planeado pela equipa para que dessa forma o Safety Car tivesse de entrar em pista.
Na altura, o regulamento impedia os carros de pararem nas boxes, sempre que o Safety Car estivesse em pista. Dessa forma, no reatar da corrida, os vários carros pararam e Alonso assumiu a liderança do GP, ganhando a corrida.
Depois da corrida, surgiram algumas desconfianças devido ao facto da paragem de Alonso ter sido numa fase inicial da corrida e de ter coincidido com a altura em que Piquet Jr. se despistou.
No entanto, no GP seguinte, no Japão, a equipa voltou a vencer com Alonso, e Piquet Jr. alcançou o quarto lugar, dissipando as desconfianças.
No último GP da temporada, no Brasil, o pai de Piquet Jr. falou com Charlie Whiting (diretor de provas da Federação Internacional de Automobilismo - FIA) sobre a situação. Whiting explicou que apenas podia ser aberta uma investigação se o piloto apresentasse queixa. Algo que não aconteceu, pois Piquet Jr. tinha renovado com a equipa para a época seguinte.
Piquet Jr. e Alonso continuaram como pilotos da Renault, no ano de 2009. No entanto, Piquet Jr. não estava a alcançar os resultados pretendidos pela equipa e, após o GP da Hungria, foi dispensado e substituÃdo por Romain Grosjean.
Uma semana depois do seu afastamento, a FIA anunciou ter iniciado uma investigação ao caso.
No GP da Bélgica, um jornalista brasileiro, que fazia comentários na televisão, revelou toda a história. O jornalista contactava regularmente com a famÃlia Piquet.
No seu depoimento, Nelson Piquet Jr. revelou que a ordem para provocar o acidente lhe tinha sido dada apenas horas antes da corrida, numa reunião que teve com Flavio Briatore e Pat Symonds, responsáveis da Renault. Mostrou, também, dados da telemetria do seu monolugar que indicavam que mesmo após ter perdido o controlo do carro continuou a acelerar. As conversas de rádio durante a corrida também demonstravam a preocupação do brasileiro em saber em que volta estava.
Piquet disse, ainda, que se sentiu coagido pelos chefes, pois tinha medo de perder o lugar na equipa.
Briatore e Symonds refutaram tudo e disseram que a iniciativa de provocar o acidente tinha surgido de Piquet Jr.
A Renault chegou a ir para tribunal com a famÃlia Piquet, por tentativa de extorsão, mas pouco tempo depois desistiu e demitiu a chefia da equipa. A partir daÃ, contribuiu com as investigações.
Em setembro de 2009, a FIA deu o veredicto. Flavio Briatore foi banido da F1, Pat Symonds foi suspenso por cinco anos. Piquet Jr. e Alonso não sofreram qualquer punição.
Piquet Jr. porque fez um acordo com a FIA e Alonso porque não se conseguiu provar que sabia dos planos da equipa.
Já a equipa Renault foi suspensa por dois anos, com efeitos suspensivos, ou seja, se até ao final de 2011 fizesse algo semelhante seria suspensa. No entanto, o caso levou à perda de vários patrocÃnios.
No ano de 2013, Symonds e Briatore chegaram a acordo com a FIA e os seus castigos foram revogados. Symods regressou ao ativo tendo trabalhado nas equipas da Marussia e da Williams. Atualmente, é diretor técnico da F1.
Nelson Piquet Jr. tem participado em vários campeonatos, tendo inclusive vencido a primeira temporada de Fórmula E.
Por João Tavares

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