Sobre Rodas #3 - Spygate



No ano de 2007, o mundo da F1 foi abalado por um escândalo relacionado com espionagem, que envolvia as duas principais equipas da competição, a Ferrari e a McLaren.

O protagonista da história foi Nigel Stepney, funcionário da Ferrari desde 1993, que passou pelos cargos de mecânico chefe, diretor de testes e diretor de corridas. Após a saída de Ross Brawn, no final da época de 2006, Nigel Stepney pensou que iria assumir o lugar de diretor técnico, o que acabou por não acontecer, já que o lugar foi preenchido por Mario Almondo.

Devido ao seu descontentamento com a situação, Stepney pediu para ser recolocado noutra função, passando a exercer o cargo de chefe de desenvolvimento e performance.

Assim, Stepney foi o principal suspeito quando um pó branco foi encontrado nos tanques de combustível dos carros dos pilotos Kimi Raikkonen e Felipe Massa, ambos da Ferrari, supostamente com a intenção de sabotar o desempenho dos mesmos.

Em maio de 2007, após ser descoberto um material semelhante nos bolsos das suas calças e depois de ter sido visto por duas vezes a rondar os tanques dos carros, a Ferrari suspendeu-o e levou-o a tribunal por tentativa de sabotagem.

Passado alguns dias, a Ferrari descobriu que algumas informações técnicas confidenciais foram expostas, através de um funcionário de uma papelaria em Woking, na Inglaterra, que comunicou à equipa que uma mulher digitalizou no seu estabelecimento 780 páginas que remetiam para o modelo F2007.

Essa mulher era casada com Mike Coughlan, funcionário da McLaren e grande amigo de Stepney. Este acabou por ser demitido. Uma busca policial na sua casa encontrou vários indícios que provavam o seu envolvimento no caso do pó branco. Também foram encontrados dossiês com informações técnicas da Ferrari. Quanto a Coughlan, devido a suspeitas de ter recebido conteúdo técnico da Ferrari foi suspenso pela McLaren.

A FIA (Federação Internacional de Automobilismo), em julho, abriu oficialmente uma investigação sobre o caso. A McLaren insistiu na sua inocência, argumentado que Coughlan tinha agido individualmente. Stepney negou as acusações que recaíam sobre si, dizendo estar a ser vítima de perseguição interna por parte da Ferrari, devido à sua oposição à mudança no posto de diretor técnico.

A organização que gere a F1 culpabilizou a McLaren por ter em sua posse dados privilegiados da Ferrari, no entanto, não aplicou punições devido à falta de provas de que a equipa tenha usado essas informações.

Durante a qualificação para o Grande Prémio da Hungria, houve um desentendimento entre os pilotos da McLaren, Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Este, umas horas antes da corrida, ameaçou Ron Dennis. Alonso pretendia que o chefe da equipa fizesse algo para prejudicar a prestação de Hamilton e caso não atendesse ao seu pedido, iria entregar os e-mails que comprometiam Dennis no caso de espionagem.

Dennis não se deixou chantagear e falou com Max Mosley, presidente da Federação, sobre os e-mails. Porém, este já tinha conhecimento do caso, através do diretor executivo da F1, Bernie Ecclestone, que tinha sido informado por Flavio Briatore, ex-chefe e empresário de Alonso. Foi então marcada a data para um segundo julgamento da McLaren.

Em setembro, Alonso e Pedro de la Rosa (piloto de testes da McLaren) entregaram toda a informação que tinham sobre o caso. Lewis Hamilton referiu não possuir qualquer evidência, pois nem sequer tinha conhecimento do que se estava a passar.

No dia 13 desse mês, a McLaren foi considerada culpada. Perdeu todos os pontos no Mundial de Construtores em 2007 e foi condenada a pagar uma multa de 100 milhões de dólares. Apenas os pilotos poderiam subir ao pódio para receber os troféus em caso de vitória.

A investigação concluiu que Stepney passava as informações a Coughlan, que as repassava a Pedro de la Rosa, que após a realização de testes no simulador transmitia os dados a Fernando Alonso.

Nessa temporada, a Ferrari conquistou o título Mundial de Construtores e Kimi Raikkonen o título Mundial de Pilotos.

Fernando Alonso, apesar de ter contrato com duração de três anos, deixou de imediato a McLaren, regressando à Renault, equipa comandada por Flavio Briatore.

Em dezembro de 2008, no processo civil que corria em Itália, Mike Coughlan foi multado em 180 mil euros. Em setembro de 2010, Nigel Stepney foi condenado a 20 meses de prisão em Itália, pena que nunca chegou a cumprir.


Por João Tavares

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